Acervo silencioso

Não é bibliografia. É o que nos sustenta quando ninguém está olhando.

A leitura autoral da casa decanta um conjunto de fontes que circulam silenciosamente em cada trabalho. Não citamos no site principal. Não compomos lista comercial. Mas estão presentes: no método, no vocabulário, na forma de olhar.

Filosofia da linguagem e da descrição

Onde a categoria que se nomeia se torna materialmente verdadeira por repetição.

  1. i
    Ian HackingThe Looping Effect of Human Kinds
    In: Causal Cognition, Oxford University Press, 1995

    Descrições circulantes não apenas observam: produzem o objeto que pareciam apenas registrar. Princípio que opera em organizações silenciosamente, todos os dias.

  2. ii
    Murray Shanahan & Janet Wiles SingerRole-Play with Large Language Models
    Nature, vol. 623, 2024

    A persona estabilizada por convergência de descrições é o mesmo mecanismo que opera na cultura organizacional. A diferença é quem segura o lápis.

  3. iii
    George SorosThe Alchemy of Finance · sobre reflexividade
    Wiley, edição revisada 2003

    O que se pensa sobre o mercado modifica o mercado. O que uma empresa pensa sobre si mesma faz o mesmo. Reflexividade como categoria de design organizacional.

Arquitetura da cognição distribuída

Sobre como decisões emergem entre múltiplos agentes: humanos, máquinas e o sistema que os contém.

  1. iv
    Edwin HutchinsCognition in the Wild
    MIT Press, 1995

    A cognição não pertence ao indivíduo. Pertence ao sistema sócio-técnico em que o indivíduo é apenas um nó. Fundamento do que chamamos contexto proprietário.

  2. v
    James G. MarchExploration and Exploitation in Organizational Learning
    Organization Science, vol. 2, 1991

    O dilema entre explorar o novo e tirar partido do já dominado é o dilema fundamental de toda organização que dura. Engenharia de contexto começa aqui.

  3. vi
    Karl WeickThe Collapse of Sensemaking in Organizations: The Mann Gulch Disaster
    Administrative Science Quarterly, vol. 38, 1993

    Quando o sentido institucional desaba sob pressão, a organização revela a fragilidade que sempre carregou. Estudo de caso que ensina mais sobre liderança do que mil manuais.

Vulnerabilidade arquitetural em era de agentes

O que aprendemos sobre risco organizacional lendo pesquisa de segurança de IA.

  1. vii
    Franklin, Tomašev, Jacobs, Leibo & OsinderoAI Agent Traps: Categorizing Adversarial Content for Autonomous Web Agents
    SSRN 6372438, Google DeepMind, 2026

    Seis classes de armadilha cognitiva. Cinco delas operam, antes de qualquer agente, em organizações inteiras, todos os dias, antes que IA seja contratada.

Atenção, escassez e economia da curadoria

Por que, num mundo de abundância informacional, a única coisa que ainda escala é a atenção curada.

  1. viii
    Herbert A. SimonDesigning Organizations for an Information-Rich World
    In: Computers, Communications, and the Public Interest, Johns Hopkins, 1971

    "Em um mundo rico em informação, abundância de informação cria pobreza de atenção." Princípio escrito antes da internet, e mais verdadeiro agora.

  2. ix
    Mihaly CsikszentmihalyiFlow: The Psychology of Optimal Experience
    Harper Perennial, 1990

    A condição de fluxo só emerge quando o contexto sustenta a atenção. Em organizações, contexto compartilhado é a infraestrutura silenciosa do flow institucional.

Práticas de permanência

Sobre o que se mantém quando o líder, o sistema, o ciclo passam.

  1. x
    Peter DruckerManaging Oneself
    Harvard Business Review, janeiro 1999

    Quem se conhece, sustenta organização. A primeira camada do contexto proprietário é, sempre, o autoconhecimento de quem lidera. Sem isso, o resto é compensação.

Nada do que está aqui é prescrição. É composição. Cada autor entrou em um momento específico, contribuiu com uma frase que ainda ressoa, e permanece no horizonte do que escrevemos. Quando uma organização nos procura, é parte do que carregamos para a sala. Mesmo sem ser dito.